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União dos vegetais
Caia, Kaia sereno
Aki dentro não cai não
Nos unimos pela linguagem
- como os vegetal pela água e fogo -
Ela é força e luz
Como chacrona
e mariri, é mariri?
entra em nós
feito arroz, feijão
maconha e pão
Tudo nos une ao um
Porque, claro, tudo é
um só
Mas para sentir
o sereno cair
temos que sair
daqui
O que será que eu vomitei?
Desde quando
e onde estava
aquilo que saiu?
Quisera eu
vomitar todo o álcool
toda tolice que se instalou
em mim
Mas de onde saiu
o que saiu?
Tomara que não tenha saído o amor
Nem o feijão de minha vó:
amor.
Luz todo mundo oferece:
o sol, a lâmpada,
a TV, a cachaça,
Jesus, o vagalume
Luz é só receber
e iluminar
(pouco sabe o iluminado
que catequista o obscurecido, chamando-lhe obscurecido,
que só se ilumina o escuro).
Luz, Paz, Amor
Diz o mestre:
Moral, espiritual, intelectual
Uma multidão
sentada, chapada
é Deus
A chuva
que nos chama de volta
à casa
é Deus
A música gravada
O cântico, chamada, livre
A gestalt nos pés
é Deus
As coisas de Deus
são simples
como o sereno?
Como o sereno
de café da manhã
lambo-o de cima dos carros
que impedem meu sereno
- sereno de Deus -
de chegar ao chão
Grau de memória
Cientificação
Ouvir o som dos grilos
O canto do bebê que chora
Mas se abafa pelos ladrilhos
Cumprir nossos deveres
Cumprimentar nossos devires
Aceitar que existe um mundo superior
Eis a função da religião
no tripé junto à família, e ao trabalho
Porém, não eis também
a função, essa, mesma da chuva?
A metáfora é tão perfeita
(como se houvesse grau de perfeição
Há?)
Que vem de supra
de cima, a chuva
é sempre superior
Poder-se-ia falar da lava
que é superior
e é Deus
mas vem de baixo
(metáfora menos perfeita
Há?)
- e aqui não há
vulcões -
O perdão
é a força do sim
que salva o erro
do não
O que é não
já morreu
Eis que se vem
a ressurreição
Nós nos perdoamos a nós mesmos
e nascemos, sim, de novo
Tem vezes que tenho a impressão
de que me conheço tão bem
que já deveria estar morto
Perdoe-me discordar
mas para conhecer os
Encantos divinos
na padaria, sim senhor
O mestre nos abre aos encantos
da natureza divina
O mestre é o chá
- Deus -
A união dos vegetais
Chacrona, mariri
Manteiga, sopa
Torrada, geleia
Homem, mulher
Mulher, mulher
União dos vegetais
A palavra tem peso
onde os encantos
são potentes - e
sempre o são
O homem que é são
e fala, fala fala fala
Pra mostrar o falo
Tome cuidado, pois que toda palavra
e suas infinitas combinações
lançadas ao mundo
perfuram feito lanças
todos a que alcança
como a uma criança
Que nossas limitações
sirvam de concretude
entre os pensamentos abstratos
sirvam de modelos de muralha
Para criarmos ferramentas
que as destruam
e aumente un poquito
pero solo un poquito
y por un rato
nuestros orizontes
Sem limites, sem as paredes
estamos simplesmente perdidos
Porém, não construamos labirintos
Pois que nem mesmo o minotauro
Em seu centro
- objetivo do labirinto:
matá-lo -
nem mesmo o minotauro
é feliz ali
O minotauro tem duas alegrias
viver, ou morrer
O que mais fazemos nessa vida
Mais que amar, mais que comer
Mais que foder e falar
O que mais fazemos nessa vida?
Respirar. Nossa única essência.
Mestre, me diz:
qual a importância de respirar
bem?
Aprender: prender o a?
Ou soltar e negar o que está preso?
Tenho certeza que, quando me viu vindo em sua direção, e que eu o atropelaria, ele sorriu. Mas assim que percebeu que eu teria reflexo e habilidade o suficiente para parar o carro antes de o atingir, fez sério sua expressão do rosto, e até reclamou de meu descuidado, mui calmamente, e balbuciou qualquer coisa como que pedindo que eu prestasse mais atenção por onde dirigia.
Parece-me que aquele sorriso surgiu justamente do prazer da ideia de realizar o suicídio perfeito: isento de culpa. Pois que no acidente não há um assassino que mata, ou um suicida que se joga à morte, mas há apenas desatenção (talvez algum psicanalista chamaria de ato falho, mas quem pode culpar o inconsciente?). Julgariam-me por tê-lo matado, é claro, mas, caso o acidente obtivesse o sucesso, em nossas consciências - na minha viva, e na dele morto - não haveria culpa alguma, ele queria morrer. Eu não queria matar, porém, como qualquer adulto que tenha superado o desamparo infantil, sei o valor que é receber de alguém aquilo que se mais quer, seja amor, seja morte, e por isso não me seria caro para suportar minha existência esse fato de tê-lo matado, só fiz o que ele queria que fosse feito.
No entanto os suicidas são mal-vistos por todos, talvez inclusive por si mesmo, e estes que esperam a morte não, necessariamente, desejam forçar sua chegada, por isso se faz ideal o cenário de um acidente, pois o morto, por vezes, acaba por se tornar uma espécie de herói, (
("pobre coitado que sofreu os infortúnios da mais potente má sorte!") sem saber que o que julgam carrasco ("maldito desatencioso! Deve lhe ter faltado carinho em casa, a este mal-criado."), quem matou acidentalmente, é que é o verdadeiro herói. Todos os desejos foram realizados, exceto os dos homens corretos, de boa moral e índole, que criaram as regras que nos ditam ser extremamente errado - coisa de louco - querer morrer e não se importar por matar quem quer morrer.
("pobre coitado que sofreu os infortúnios da mais potente má sorte!") sem saber que o que julgam carrasco ("maldito desatencioso! Deve lhe ter faltado carinho em casa, a este mal-criado."), quem matou acidentalmente, é que é o verdadeiro herói. Todos os desejos foram realizados, exceto os dos homens corretos, de boa moral e índole, que criaram as regras que nos ditam ser extremamente errado - coisa de louco - querer morrer e não se importar por matar quem quer morrer.
Todos vamos morrer, uns pelo trabalho, outros por amor.
Eu quero ser uma estrela da pedra, neném.
"I wanna be a rockstar" é um grito por liberdade tão urgente à adolescência que exterioriza a angústia pelo gutural, pelo berro: por nossa arma mais primitiva, anterior à própria linguagem, quase blablação não fosse o significado da frase na língua inglesa. O personagem rockstar foi o boêmio dos anos 90 (a música foi composta em 2002, portanto o personagem fantasioso do rockstar é como um resquício diurno, como se a década anterior fosse a "aurora" de minha vida atual; como se fosse o dia, que forma todo o inconsciente obscuro, a noite em mim, que alucina, sonha, com o ser rockstar nos anos 2000), o anarquista, o poeta, por quem as mulheres se atraíam apesar das roupas surradas e rasgadas (seria justamente por isso que elas se atraíam? por parecer que precisam de mães, os rockstars? desejavam se sentir, com eles, a mais poderosa das mulheres: a mãe? cuidando dessa criança desamparada e angustiada que é o rockstar).
Quando grito o que quero ser em outra língua imediatamente explicito (fico nu) que quero ser outra coisa que não isso que forçosamente sugere minha língua materna, minha mãe: quero renunciar a mãe, superar o desamparo, tornar-me o falo invejado; quero dominar a mãe, e por isso quero ser rockstar, possuir, dominar muitas mulheres que se atreverem a serem minhas mães. Grito ao contrário do que me foi dado durante toda minha formação de sujeito, meu espírito torna-se leão e grita o sagrado "não!" do Zaratustra de Nietzsche.
"I don't want to hate, I don't wanna blame". Sou assim violento justamente por não querer sentir esse ódio por quem me tornei; e também não quero culpar ninguém, não me cabe culpar, sei que sou quem sou só por ser quem sou e isso não diz respeito a ninguém se não eu mesmo e, como não sou mais crstão, não quero sê-lo, não me culpo. Mas falo sempre na negativa, por isso tenho que ser agressivo, tenho que exteriorizar essa dor em força, ação positiva contra o discurso-negativo: tenho que ser dialético para evoluir. "Listen what they say, what I told you: I wanna be a rockstar, baby. I wanna be a rockstar". Eu não tenho assunto, é apenas isso que desejo: ser um rockstar, tudo o mais é alucinação: apenas escute, escute... Mais uma grosseria minha, outra agressividade: chamo tua atenção, peço para que me escute, para então gritar em teus ouvidos. "Your life's so swell, well I don't really wanna be like that". Pois é justo isso: não quero ser bacana, não quero ser o bom vizinho, o que dá presentes à namorada somente nos aniversários, quero ser o amante! quero ser o poeta! (sei que Werther me entenderia) prefiro morrer a ser bacana (por fim a morte, sempre a morte no final, e somente com a morte se pode acabar). Para mostrar que sei ser rockstar e que faço o que bem quiser eis que transformo a música em salsa, mas mantenho a mesma harmonia foi grunge, depois mais esta outra coisa (que era de meu amigo e que me foi dado com carinho por ele, mas que nunca será meu, e que por transferência me compadeço e me aproprio, agrego ao meu discurso; com a ajuda de meu amigo me torno essa outra coisa que quero ser, e como o amor, bem pode ser ele que me torno) que não respeita a harmonia, sobe e desce cromaticamente, que se fortalece em dinâmica, de pouco em pouco, e cada vez mais, ralenta e... explode! em Tom Jobim. Ah, Tom... não quero sentir ódio, não quero culpar, escute... eu quero ser você! Só que do meu jeitinho. Ainda não sei qual é, por isso grito, por angústia, mas escute... estou tentando.
Eu vou ser um rockstar antes que eu morra.
Até que isso me mate, como o fez com todos os outros rockstars, boêmios, poetas, artistas e amantes: quero morrer de amor, não de ódio e culpa, de ser bacana.
vim te
dar ador
ar amor
tecer -
te
ia;
te
cido -
vim ser vis
to que
ri do
ama
do
vi
vo
por ti
Ensaio sobre Gustavo Lima e Werther
"Gustavo Lima e você." Junto com você. Junto de você. Você que é qualquer um que possa estar ouvindo esta música, ou seja: não você em si, mas a qualquer um você que possa estar no mesmo ambiente em que Gustavo Lima (não em presença real, terrena, carnal, mas em voz gravada, no simulacro, no virtual) esteja entoando essas palavras neste canto: junto deste você, que não é você, mas que se torna um você da música, deste discurso específico; não você pessoa, mas você, junto com o Gustavo Lima, qualquer um você. O cantor, ora, nem sabe quem é você, por isso transforma você em coisa (essa coisa você), que não é mais você pessoa em si, individual, você que trabalhou e estudou a semana inteira para poder finalmente descansar, se divertir, ser você mesmo (não ser você que obedece seu chefe, sua religião, sua escola, sua família, mas ser você que faz o que quer), é a esse você que Gustavo Lima diz estar junto: você que quer tanto que sente precisar ser outra coisa além de você no quotidiano, é a esse você que Gustavo Lima canta e diz estar junto de. Essa é uma das formas que muitos escolhemos para existir para além do trabalho: aceitando a sugestão de nos coisificar, nos tornando um você dito por alguém que não conhece você, mas que a você oferece um momento de prazer fácil e impessoal (impoessoal pois o você que você se torna não é a pessoa que você é, em si para si, mas o você apontado e sugerido por outro: nesse caso Gustavo Lima.
Há músicas escritas na segunda pessoa em que esta é absolutamente definida pelo compositor e para compositor, como se este conversasse, ou se dedicasse, ou desse um conselho a esta segunda pessoa, e que (eis a arte da arte) a quem convir pode apropriar-se dela: tornar-se o próprio cantor ou a musa; não é o caso da canção de Gustavo Lima. Esse novo gênero que surgiu na indústria brasileira de músicas enlatadas ou para microondas ("Não sei quem fez, não é melhor que uma feita com o cuidado e carinho de mãe, mas é fácil de consumir, basta aquecer. Posso me alimentar, ou dar de alimentar a outros; não passo fome e ainda me torno provedor, um bom anfitrião, apesar de que sempre vão existir melhores, que sabem preparar o que só sei mecanicamente esquentar."), o tal sertanejo universitário, pretende usar o próprio estereótipo de universitário, e firmá-lo, e formá-lo, por isso é composta em segunda pessoa genérica (a própria primeira pessoa que canta se torna tão genérica quanto). Como fez Goethe quando dedicou "Os sofrimentos do jovem Werther" a quem procurasse um amigo¹, sugerindo que as cartas de Werther sejam cartas dirigidas a você, leitor, que você se torne esse amigo a quem Werther se confessa; assim faz Gustavo Lima. Ora, o que se sucedeu quando mais levaram a sério o amigo Werther? Muitos se suicidaram, eis o poder de "Gustavo Lima e você": convencer você que se mate por amor. Existe, evidentemente, uma diferença entre o suicídio literal decorrente da amizade com Werther e o suicídio da subjetividade decorrente da relação impessoal com Gustavo Lima. A amizade com Werther é muito mais íntima e lenta, Gustavo Lima está com você brevemente, com ele não se mata toda a vida da carne, mas se mata, enquanto não se está morto no trabalho, a subjetividade que poderia ser inventada por você nos momentos de lazer ("Mas não sei ser eu. Fui criado desamparado, minha mãe decide quando como, o que visto, com quem ando: quem me ensina como amo? A angústia: minha mãe me ensina tudo, mas não pode me ensinar como conquistá-la, a mulher perfeita, a mãe. Só posso aprender com Werther ou com Gustavo Lima. Ora, a dança do acasalamento é explicitamente mais nítida onde está Gustavo Lima, por que haveria eu de sofrer de amor como Werther? Prefiro sofrer por não ser mas ter, do que ter a alegria de ser mas não ter, afinal é mais fácil mostrar o que se tem do que o que se é.") Suicídio da subjetividade, sim, porque você, conscientemente, se permite diluir-se nesse estereótipo aparentemente prazeroso e fácil, evita-se esforçar-se para se tornar um você eu próprio, convenço-me de que ser esse você do qual fala Gustavo Lima, e que esta nesse mesmo grupo de milhares de você que estão ali juntos com o único sujeito falante nomeado, que é Gustavo Lima, todos os outros são simples você. Ironicamente, mesmo sendo o único sujeito, Gustavo Lima não é real: este nem é seu nome verdadeiro. Gustavo Lima é tão real quando Werther, Mickey Mouse, Borat ou a Branca de Neve.
Estar junto de Gustavo Lima é estar tão só quanto se pode estar ao encontrar-se imerso em uma multidão de carentes solitários. Eis a beleza dessas festas onde tocam tais canções de Gustavo Lima e outros personagens (Luan Santana, Michel Teló e a princesa brasileira Paula Fernandes) de seu espetáculo: todos se beijam, a qualquer um (pois que desde o começo todos você é qualquer um, e não você com nome sobrenome e que é pessoa, você que é essa coisa você da música de Gustavo Lima, e não você do mundo real que se relaciona e que responde perguntas dirigidas a você, você jamais poderá responder Gustavo Lima, nem negar-lhe que esteja junto de você), beija-se como que brincando de produzir amor, mas como é tudo brincadeira, é um amor de fantasia, de mentira, como Gustavo Lima e você
¹"E tu, boa alma, que sentes o Ímpeto da mesma forma que ele [Werther] o sentiu, busca consolo em seu sofrimento e deixa que o livreto seja teu amigo se, por fado ou culpa própria, não puderes achar outro mais próximo do que ele." (Goethe. 2001, p. 13)
Goethe, Johan W.. Os Sofrimentos do Jovem Werther. Porto Alegre: L&PM, 2001
Sasha Grey
Sasha grey é uma atriz pornô que gosta do que faz, diferente de quem diz que gosta mas passa anestésico no cu para sentir menos dor. Ela grita e tem uma bunda linda e grande. Gosta de possuir e dominar muitos homens ao mesmo tempo (que mal são homens, porque não costumam ter rostos, apenas pau) e de ler Sartre. Aposentou-se antes dos trinta anos e fez muito homem gastar dinheiro só para fantasiar com seu gosto de mulher que gosta de dar - coisa que diz-se rara. Ela é linda e ja fui apaixonado por ela; tenho muito orgulho de sua profissão de seus lindos peitos pequenos e de seus cabelos naturais na cabeça e na boceta. Já quis amá-la muito mais que qualquer atriz de novela.
alta imensa maior que o mundo mais linda que dinheiro mais alta que coqueiro mais verde que o sol mais azul baguaçu violentada como santa decaptada tosada assassinada de uma vida de séculos mais velha que eu e que qualquer gaúcho vivo que vai morrer apesar de achar que não quando matou minha irmã minha árvore frutífera que alimentava meu irmão pássaro que cantava pro meu id sonho que velava meu descanso sono que agora acorda ao som de máquinas monstros estão avançando pra cima de mim e de minha vó que podia já ter morrido para não ter que passar por isso mas fico feliz que não porque a amo a amo como amo a cabeluda gárgula vênus portal do meu lar onde sempre sempre sempre sempre sempre sempre vivi e morei mais ainda não morri será que querem me matar? acho que sim mas não vão conseguir porque o único que pode tirar minha vida sou eu meu amor e a árvore mas a árvore já morreu agora só no ano que vem do ano que vem do ano que vem do ano que vem de mais de cem anos daqui quando seus cabelos voltarem a crescer que mania chata essa a dos homens que cortam os cabelos e as árvores pra caber mais carro e mais vaidade e menos amor e menos fruta de verdade já que fruta no mercado é feita de dinheiro sem dinheiro ninguém come as frutas do mercado nem vão morar nos monstros edificados que gritam a noite como se chorassem e devem chorar pois deve ser triste ser tão odiado e tão rico ao lado de gente tão amada e tão rica de amor e de árvore e de gatos cachorros e não de yorkshires e palmeiras mas sim avaí e guarani do abraão não de coqueiros mas da praia do cagão.
de madrugada de cueca no meu quarto sozinho e só eu falo como eu quiser falar como poesia tudo vira poesia tudo tu do tu de ti tudo é teu se é teu é de alguém se é de alguém é meu se é meu é de mais ninguém se é de ninguém é de quem quiser é de todo o mundo.
Leia mais no meu novo blog
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Álbum de amizade (declaração de amizade)
Mas, se não captar aquela pequena raiz, o pequeno grão de loucura da pessoa, não pode amá-la. Se não captar o ponto de demência de alguém… Ele pode assustar, mas, a mim, fico feliz de constatar que o ponto de demêcia de alguém é a fonte de seu charme.”
Gilles Deleuze¹
Em comemoração de meus 25 anos.
Amizade é caótica, bagunçada (pois é livre). A fotografia de grupo pretende captar e organizar um momento aleatório, mostrar (nos mostrar) o conforto que é estar em contraponto.
Como fazer uma mulher se apaixonar em menos de uma semana.
Beije-a publicamente na Quarta-feira. Tome especial cuidado para que alguém próximo e querido dela entre em contato com vocês dois, juntos, durante esta Quarta; não a beije ou segure sua mão em frente ao tal amigo, mantenha-se sereno, distante e observador, a moça se excitará com o mistério projetado sobre o bom amigo (mistério falso, pois tua postura viril deve deixar clara tua intenção de beijá-la antes que finde a Quarta-feira). Assim que o cenário estiver parcialmente (certa dose de aleatoriedade é necessária a fim de que não dê a impressão de ser uma cena de filme clichê demais, ou um teatro de interpretações exageradas não convincentes; a grande dificuldade da cena romântica: parecer real). construído leve-a para qualquer lugar em que vocês dois não se sintam hostilizados (longe de semi-conhecidos, longe da possibilidade de encontro com familiares ou bons professores) e, enfim, a beije - não esqueça do óbvio que é o homem ter o dever de tomar a inciativa do beijo, Demonstre, quase que agressivamente, suas intenções sexuais com as mãos e pelvis; não seja carinhoso demais nesse primeiro beijo, ela pode assustar-se, ou pior, satisfazer-se.
Na Quinta-feira suma. Não dê sinal algum de interesse, afinal o beijo de ontem era tua comprovação de interesse; a ideia "interesse" já fazia parte do campo da relação de vocês desde o encontro*, e principalmente após o beijo, ou seja: o desejo, de um ao outro, foi criado no mundo das ideias, platonicamente falando. Todos sabemos da tendência contemporânea das mulheres de viverem amorosamente na fantasia, no ideal, por isso aparecer-se para ela como amante para ela logo no dia seguinte é tornar essa fantasia real, tornar o sonho real; ou seja, tornar-te-ias o ideal, utópico, irreal, inexistente: deixarias de existir; ser o agente realizador de sonhos é deixar de existir, tonar-se uma espécie de anjo, casto; o príncipe nunca transa com a princesa, nem sequer a beija com paixão, o que se mostra nos contos de fada é um beijo inocente que pretende, unicamente, salvar a princesa de algum mal que ela mesma, sozinha, não teve responsabilidade (habilidade de resposta) para solucionar, e a história acaba logo após o selo. Assim saciado o desejo, realizado o sonho de menina de rever o príncipe encantado logo no dia seguinte, a mulher passa a desejar outra coisa (assim como um bebê para de chorar, para de sentir falta, e de acordo com Freud, de desejar, e até nega comida assim que tem sua fome saciada, e passa então a desejar outra coisa, dormir talvez.).
Passada a Quinta-feira ausente, não a procure também na Sexta-feira - nada mais óbvio (entediante), e o óbvio nos parece detestável, que o dia seguinte ao seguinte. Demonstra falta de virilidade, como se se pedisse perdão por ter lhe faltado romantismo quanto se teve a chance (ligar no dia seguinte é um ato de romantismo). Saiba: ela comentará sua ausência com os amigos, e com maior cuidado e acanhamento o fará também para aquele que os flagrou na Quarta. Reclamará demasiadamente, e isso te fará ocupar-lhe o pensamento de forma intensa (a potência do afeto deixa mais resquícios que sua qualidade).
O grande segredo da conquista está no final-de-semana. Tenha a destreza de um dançarino, ou de um ninja, de que ela tenha uma forte impressão de poder te encontrar em algum evento: balada, festa de amigo em comum, ou qualquer outro local social alegre e prazeroso (ora, de que serviria encontrá-la em um velório? seria intimidade forçada; a velórios só se vai em companhia depois que a intimidade já foi conquistada pelo casal): comente com ela, ainda na Quarta-feira, sobre alguma banda (mesmo que ruim, pois eis a estratégia de se levar a moça em cinema para assistir um filme ruim: fica subentendido que o que importa não é o filme, mas o ambiente escuro, as poltronas próximas, o som alto e, principalmente, para ficarem juntos) que irá tocar naquele final-de-semana, lembre-a do amigo em comum que completa anos por esses dias, etc. Não dê certeza, de jeito algum, de sua presença. Menos ainda a pressione questionando sobre a presença dela: ela irá - esta certeza tu podes ter - e ainda será a mulher mais linda do local: tu a reconhecerás melhor por sua beleza irreconhecível que por semelhança com a bela moça que durante a semana beijaras. Ela estará vestida de forma que partes de seu corpo fique elegantemente à mostra; rosto pintado como a uma pintura clássica; cabelos sedosos sensualmente dispostos (dificilmente ela estará com cabelos soltos; os cabelos soltos são código de disponibilidade, os cabelos arrumados, o penteado, são código de dedicatória) para acentuar-lhe a beleza do rosto; unhas das mãos pintadas em consonância com suas intenções (alma e corpo da mulher são elegantes, mas as mãos - mãos cujas unhas te arranharão logo mais - de uma libertina, de uma pervertida); unhas dos pés também tão bem cuidadas quanto todo o resto do corpo, no entanto estas só serão exibidas juntamente com seu corpo nu (os enfeites nos pés não servem tanto para a ação de conquista, mas já para a consumação do conquistado). As unhas, das mãos e dos pés, trabalham, esteticamente, em relação à lingerie (ao que tapa e enfeita o genital, que é justamente a localidade da sexualidade adulta), eis por isso que mãos bem cuidadas são tão sensuais, e pés chegam a ser fetichizados, podendo até fazer uma mulher parecer vulgar (por ficarem distantes da cabeça que é onde se processam as percepções; é mais fácil, menos íntimo e nada vulgar segurar mãos, acarinhar mãos, beijar mãos, diferente do que seria segurar pés, acarinhar pés, beijar pés).
Chegue nesta festa do final-de-semana sem avisar e vestido casualmente, mas faça-se cheiroso (o perfume deve parecer mais caro que o próprio carro; teu cheiro deve demonstrar mais poder que tua posse, pois esse diz respeito ao teu corpo, ao que ela quer possuir ainda esta noite, enquanto o carro é artefato substituível). Não chegue muito cedo, mas tome cuidado também para não chegar tarde demais> ela pode queixar-se de ti para um outro que a conforte; ela pode ficar com a impressão de ser tua segunda opção ("O que ele tem de melhor pra fazer do que aproveitar cada instante aqui comigo?"); ela pode, ainda, perceber o jogo e desencantar-se com a confirmação da mentira (ora, toda mentira deve parecer verdade, eis o encantamento paradoxal).
Nesta noite tu irás conhecer as unhas dos pés da bela moça apaixonada. Como irás tratá-la no dia seguinte ao da festa (maquiagem borrada, roupas socadas; máscaras e fantasias quebradas, rasgadas ou simplesmente guardadas) irá funcionar como que em um experimento químico, e este tratamento é como a energia - o fogo, o frio, a manutenção de movimento - necessária para que a reação química dê resultado. Até então se estavas apenas como que coletando material, medindo as quantidades e os dispondo em um mesmo recipiente (o quarto, o carro, etc), a reação resultante desejada, "mulher apaixonada", se dá apenas após o descanso: o ato sexual ainda faz parte do campo da conquista, somente no pós-sexo (que obrigatoriamente deve ser o "dia seguinte" caso se queira que a mulher se apaixone de fato) é que se forma o composto "mulher apaixonada". Por isso a trate bem, seja cortês: acorde antes dela e sirva-lhe café com bolachas, ou pãezinhos frescos, geleia, manteiga; deixe a disposição opções como sucos, iogurtes, achocolatado, e o que mais lhe vier à cabeça - todos os produtos exibidos devem ser de estrema qualidade.
Feita apaixonada a mulher desenvolve-se outra dificuldade que é a manutenção dessa relação. Tome demasiado cuidado, não mais com a destreza de um dançarino ou ninja, mas de um artista completo: poeta, músico, pintor, ninja, cientista, filósofo, etc - tudo ao mesmo tempo. Inúmeras variáveis surgirão que poderão interferir e reagir com a relação estabelecida entre vocês, como um amigo apaixonado, ou um ex-namorado. A agressividade e a virilidade são necessárias para este primeiro momento da relação amorosa, que é mais perversa do que propriamente amorosa. Por isso, ao tornar-se artista a fim de desenvolver a relação, deve-se ao mesmo tempo ser poeta e tarado: a perversão do poeta não é suficientemente pervertida, por isso, inclusive, a dificuldade que algumas mulheres encontram de perceber a paixão da carne de um poeta (a paixão no discurso e na ideia se percebe imediatamente); ou então ao contrário: estranha-se tamanha perversão-não-perversa-amorosa e chamam ao poeta de cafajeste); o artista tende, também, a começar sua relação pelo fim, pelo amor, por isso, logicamente, terminam no começo: na paixão (o artista sofre eternamente a paixão, diferente de quem permite que a paixão morra - transforme-se? - a chegada do amor); no entanto o amor do artista não morre nunca, diferente daqueles que carecem de paixão, e por nunca deixarem de amar os artistas tendem a ter muitas amantes e por colocá-las em suas obras, o que as enciuma umas às outras e as distancia (mas estas mulheres nunca diminuem seu amor pelo artista, pois esta é absurdamente honesto e por isso é irrefutável, e assim inesquecível).
Eis como fazer uma mulher se apaixonar por ti em menos de uma semana. Agora, fazê-la amar é outra história.
*Em inglês a palavra "date", que se traduz por "encontro", já supõe um encontro de paquera, de intenções românticas, sexuais ou amorosas, e é dessa forma que uso a palavra "encontro" aqui.
(amor) frágil fraternal
vem pra cá
o que é que há
nem é preciso respirar
vem me falar
que assim já basta
mas tudo isso irá findar
assim que você se for com outro amor
- amigos só perdem pr'um novo amor
eu sei lá
o que pode dar
alegria é experimentar
se eu me for com um novo amor
o antigo será sempre outro amor
o que é que há
nem é preciso respirar
vem me falar
que assim já basta
mas tudo isso irá findar
assim que você se for com outro amor
- amigos só perdem pr'um novo amor
eu sei lá
o que pode dar
alegria é experimentar
se eu me for com um novo amor
o antigo será sempre outro amor
amor de índio
lá em baixo há
o que sempre esteve lá
por onde caminhar
ir pra lá e pra cá
já que não sei de onde sou
sabe amar a vó que te amou
com frutas e água
e muito amor
não há língua
que fale esse amor
o que sempre esteve lá
por onde caminhar
ir pra lá e pra cá
já que não sei de onde sou
sabe amar a vó que te amou
com frutas e água
e muito amor
não há língua
que fale esse amor
Ócio maldito
Antes de mais nada: ser. Não ter, não dar, não querer, não desejar; mas ser. E ser o que se é, do que adianta um homem querer ser mulher antes de ser homem? Mulher que é mulher sente as paixões do corpo, muito antes de querer ter outro corpo.
Um ser completo é sentimento, é razão, mas é também corpo. Deve-se obedecer as necessidades do corpo. O corpo infantil é sentimental (percebe o mundo, se afeta pelo mundo), o corpo adolescente (aquele que cresce as forças) é razão (quer negar o mundo através do pensamento, e exterioriza a fantasia formada pelo pensamento: a fantasia adolescente, o punk, a patricinha, o maloqueiro, o nerd, a hippie, a riot grrrl, a devassa, o comedor, etc), o adulto, enfim, deve agregar (o que percebeu na infância e as identidades formadas - plural - na adolescência) e produzir algo com os afetos. (Produzir é o que alimenta a prole, por isso o homem adulto é aquele que produz, antes disso o homem ainda adolesce, ainda precisa que o alimentam para crescer em forças.)
Sentir amor é ação infantil; pensar em amor é ação adolescente, sentir, pensar e produzir amor é, enfim, o ideal da ação madura, complexa, adulta.
Será que vai ser pra sempre esse querer quem não me quer?
Os meios de produção é que produzem loucura. Sem o meio de produção (na anarquia) não existem loucos - pois todos o são.
Não aguento mais essa procura,
ou essa espera
Essa saudade já está me fazendo mal.
Eis que nasce a angústia
perceber que o que faz tão mal
não é culpa de ninguém
nem minha - não existe culpa
Não existem livros, nem amigos, nem drogas
que ajudem a solucionar um problema jamais solucionado
Cada um deve compor
sua própria poção - seu próprio veneno.
Um ser completo é sentimento, é razão, mas é também corpo. Deve-se obedecer as necessidades do corpo. O corpo infantil é sentimental (percebe o mundo, se afeta pelo mundo), o corpo adolescente (aquele que cresce as forças) é razão (quer negar o mundo através do pensamento, e exterioriza a fantasia formada pelo pensamento: a fantasia adolescente, o punk, a patricinha, o maloqueiro, o nerd, a hippie, a riot grrrl, a devassa, o comedor, etc), o adulto, enfim, deve agregar (o que percebeu na infância e as identidades formadas - plural - na adolescência) e produzir algo com os afetos. (Produzir é o que alimenta a prole, por isso o homem adulto é aquele que produz, antes disso o homem ainda adolesce, ainda precisa que o alimentam para crescer em forças.)
Sentir amor é ação infantil; pensar em amor é ação adolescente, sentir, pensar e produzir amor é, enfim, o ideal da ação madura, complexa, adulta.
Será que vai ser pra sempre esse querer quem não me quer?
Os meios de produção é que produzem loucura. Sem o meio de produção (na anarquia) não existem loucos - pois todos o são.
Não aguento mais essa procura,
ou essa espera
Essa saudade já está me fazendo mal.
Eis que nasce a angústia
perceber que o que faz tão mal
não é culpa de ninguém
nem minha - não existe culpa
Não existem livros, nem amigos, nem drogas
que ajudem a solucionar um problema jamais solucionado
Cada um deve compor
sua própria poção - seu próprio veneno.
talvez o que você procura esteja bem à sua frente. ou não.
há quem goste dos clichês, que lhes digam "talvez o que você procura esteja exatamente à sua frente". hás os que detestam os clichês, que procuram milhões de maneiras de dizer "talvez o que você procura esteja exatamente à sua frente" sem tomar emprestadas as palavas de nignuém; procuram maneira de formar as próprias palavras, de fazer com que se interessem por ele pela absurda singularidade, pela novidade, e não pela familiaridade, pelo conforto. é como um filme de retórica difícil, em que "talvez o que você procura esteja exatamente à sua frente" seja diluído entre as cenas, os personagens, as tramas, trilha sonora, fotografias, cenários,mas principalmente no texto. tão sutil, que nem mesmo quem está procurando sabe que ali tem. é coisa pra que não seja percebido por muita gente, para se fazer especial (da forma como quem procura está procurando: o especial). para se fazer não clichê, não comum; se fazer inédito, exclusivo assim, sendo único (mas ser único é como ser um alien, é tão estranho que pode ser encantador como um ET do Spielberg, ou tão assustador como um Alien de Ridley Scott). sem se oferecer na exclusividade ("sou somente seu"): o que é exclusivo é que sou exatamente um (faço me parecer "um", escondo minhas referências, só as mostro quando elas alcançam as tuas, como se assim eu mesmo te acalçasse). mas há quem goste o comum, o familiar, confortável, e hoje isto é raro. ou seja: estranho, encantador e assutador.
(existem, claro, outras formas de ser romântico, mas que não cabem aqui, ou ainda não se apresentaram)
a experiência permite que se misturem essas formas de perceber o mundo amoroso: o romântico patético (Werther) e o romântico discreto. o que assusta no romântico patético é a confirmação do amor na eternidade, e na procura pela eternidade, os caminhos sempre levam à morte (Werther se matou, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda); o romântico discreto, por sua vez, assusta na volatilidade do seu tipo de relação, pois o "agora" nunca dará certeza de um amanhã, e um romântico patético não suporta a ideia de não haver amanhã.
como gerenciar isso? eis uma solução (mistura) que ainda não existe. muita experiência há de ser feita, muitas vão escorrer pelo tubo, queimar os dedos dos envolvidos, envenená-los. mas pode acontecer também de dar certo, de que dali surja alguma forma de amor que valerá como um exemplo de romance dos nossos tempos. todo o contexto mudou, nova literatura, arte, política, comida, ciência, filosofia, novos meios de transporte, etc. por que ainda hoje se baseia o amor como se vivêssemos no século xv? este pode ainda existir, mas há de existirem outros, e estes outros têm que ser inventados. por mim e por ti (e por quem mais interessar).
mas pode ser, sim, que talvez o que você procura esteja bem à sua frente. ou não.
Minha Luisa
Onde estais, Luisa? Ultimamente sinto que não és mais a mesma. Será que eu mudei? Com certeza mudei, mas tu mudastes também. Como se eu me esforçasse para enxergar alguma coisa, e esse esforço da visão fizesse meus olhos chorarem (pois é logo atrás dos olhos, na região orbitofrontal, que localiza-se o "eu" no cérebro, forçar a saída do "eu", ou a entrada de algo logo na cara do "eu" pode fazer chorar). Acho que tens outro. Sei que eu mesmo tenho outras várias, mas nunca deixei de te amar. Elas outras nunca me amaram. Mas nem tu me amaste, sim?
Para além de minha alegria, sei que estarás sempre ali, ao alcance de minhas mãos, da minha boca. Sinto-me insuficiente para ti. Não falo bonito, não sou carinhoso, minto emoções, forço situações... Acontece, minha amada Luisa, que mal sei amar! Quero dizer, me esqueci como se faz. E é exatamente assim que se faz: esquecendo como se faz. Amar é esquecer como se ama. E eu te amo, Luisa. Te amo como a uma porta no deserto. Porta sem paredes. Porta que não serve nem de entrada, nem de saída, serve simplesmente para passar por dentro dela mesma. Mesmo inútil faço questão de pôr minhas mãos - imundas, medrosas, desejosas de feminilidade e calejadas de tanto te tocar - em tua maçaneta, girar e escutar o ruído, o gemido, sentir contrair o trinco que te tranca em teu outrem, tua batente; sentir a tensão, a agonia e ouvir o estalo! o orgasmo! Ter à mão direita tua maçaneta, e a esquerda a te epurrar, assim te controlar como bem entender, pela simples alegria de te atrevessar. Sei que não vou chegar a lugar nenhum, mas sei que essa é tua função - ser atravessada -, ó, porta amada. Luisa, nunca fostes para mim uma porta que me leva ao mundo de fora, ou que me põe dentro em um lugar especial, mas és justamente esta porta inútil, que não me leva a lugar nenhum (ao mesmo lugar, só que agora do outro lado de ti), que toma meu tempo, meu pensamento, minha escrita, minha música, meu sexo, meu nexo, meu ego, pela alegria de te ver ser exatamente aquilo que tu é: uma porta. E ser contigo quem te atravessa. Nunca serei uma porta e tu nunca serás um quarto. Nem um castelo. Nem uma rua. Nem um deserto. Mas serás, para sempre, um mundo inteiro que é, simplesmente, um portal para o outro lado de si mesmo.
Me despeço de ti, choroso tal qual a flauta que não tocas, toda vez que terminamos de fazer amor. Nosso amor tem fim toda vez que tem fim nossa ação de amar. Por que isso? Toda vez o adeus é um último adeus. Mas os ois, nunca são primeiros ois. Nos cumprimentamos acanhados, tu faz que não me conhece, e eu faço que nunca te toquei. Fazes como se nunca tivesses escutado uma única palavra minha. Maldita, Luisa! Gorda. Bunda grande. Peitos grandes. E nem bunda ou peito tem. Nem tamanho. Mas és grande, gorda e difícil de lidar, de tão linda. Gostaria de ouvir tua voz. Sei que gosto de ouvir tua voz. Deve ser linda, todos os que já te tiveram - inclusive eu - dissemos que tua voz é linda.
Tu deverias ter ficado. Deverias ter vindo e ficado. Eu sou um tolo, ainda acredito que te dominarei, e sei bem que só assim, sem ti, te dominarei. Não consigo te entender. Sei de onde vens, sei pra onde vais, mas o meio do caminho... como chegastes ao meio do caminho? Teu caminho tão preciso, tortuoso, amarelo, brilhante e sombrio. Já me deixaste acordado tantas vezes quando precisei dormir, já me fizeste sonhar quando deveria estar são, já me matasse quando tentei me suicidar. Só me atrapalhas a tal vida real, Luisa. Por isso te amo. De tanto ódio que sinto por não conseguir te ter, eu te amo. De tanto medo que percebam que... percebam que... pecebam o quê? Que não sou bom o suficiente para ti, Luisa. Todos sabem dos teus amores. Pouco me importa, porque muito me importa. Se eu me ocupasse em me importar com quem já te teve, perderia de poder me importar contigo. Não quero saber de mais ninguém, só de ti. De ti, e das outras. Mas tu és meu amor, não te esqueças isso. Como vais esquecer se és incapaz de lembrar? Maldita memória que não me deixa esquecer. Se te esquecesse eu poderia te amar. Eu poderia ter teu amor! Sei bem que somente eu te amei. Talvez teu pai tenha te amado. Quero ser teu pai e te amar. Serei teu novo pai, já que o velho morreu. Não tens mãe, ou será que tu és tua própria mãe? Sim, tu nasceste para seres mãe. Como eu queria ter filhos contigo... muitos filhos, lindos filhos, felizes filhos que encheriam minha alegria de nostalgia, tristeza e desejo. Mas mesmo nossos filhos nunca serão lindos como tu, Luisa. Tu és mulher. Rouca, complicada, instável, comovente, emocionada. Tu não és albina, nem negra. Não és alta, nem baixa. Não tens braços, nem gostos. Tens batente e guarnição, onde o trinco encontra o que está fora de ti, sempre ao redor de ti. Minha missão é encontrar essa batente, que não é só tua. Aliás, desde que nascestes não tens nada além de ti mesma, Luisa. Ah! Como eu te invejo, Luisa! A ti e teu pai. Mas teu pai foi um cafajeste, dos mais lindos. Quero ser teu pai. Pra te criar, e te livrar, e poder ver tuas irmãs serem mais feias que tu. E olha que são lindas. Como tu é cruel, fazer um homem sofrer assim, fazer mulheres sofrerem assim. Assim como? Exatamente assim, sem saber como se sofre, todos sofrem por causa de ti. Talvez, quando eu finalmente souber o que me tira potência de viver, que me deixa impotente com todas as outras, aí sim, finalmente me livrarei de ti, te jogarei fora, te darei de comer aos meus gatos, e vou gargalhar te vendo morrer em meus braços; aí sim, nos amaremos, então, até o fim da eternidade, porque mesmo que meu corpo morra, eu continuarei vivo.
És como eu, Luisa. Sim. És exatamente como eu. Ninguém tem alma, nós somos alma. O que temos são corpos. Esforço-me para fazer meu corpo como o teu, para finalmente consumarmos nosso amor. Eu espero, e espero pra poder ter controle de teu corpo. Tens completo controle do meu, mas isso é porque eu tenho um corpo, e tu não. Que grosseria a minha! É claro que tens um corpo. E ele é lindo. Teu corpo é linda.
Vou procurar outras amantes, antes que eu enlouqueça, antes que eu fique só, antes que eu morra, antes que tu me mate, antes que me atropelem mesmo sem eu sair de casa. Pra que diabos eu sairia de casa, se aqui, bem aqui, sei que posso te encontrar? É só em função de ti que eu vivo, e por isso me faço de morto. Quero que te preocupes comigo, Luisa, porque eu me preocupo contigo. E te amo muito.
si nunca mai si
realmente, o segredo é sair de si, e o caminho pra sair de si é de dentro pra fora. este deve ser o segredo de vários tipos de sucesso - financeiro, afetivo, intelectual -, e é por aí que as religiões trabalham: procurando motivos para se viver para um outro, que não eu: trabalho pra deus, amo deus, rezo por deus, agradeço a deus, temo por deus: vivo e morro por deus.
esse é o prazer da masturbação, do sexo. do video game, da leitura, da música, da arte e do trabalho: fazer em razão de outro.
quando se vive em si não consegue se sair do lugar, porque o espaço do corpo (espaço físico, espaço intelectual, da psiqué) é limitado, por isso a existência, para ser infinita, produtiva, e feliz, deve ser feita em direção de outrem.
por isso também que a paixão é um delírio aparentemente tão bom: nós nos damos completamente ao outro, nos fazemos depender do outro. esse foi o segredo ocidental da alegria: o amor romântico, a dedicação exclusiva e intensiva ao outro. é o corpo sem órgãos, basicamente. paixão é devir, e por isso existem as classificações das paixões - tristes e alegres -, porque há as que viciem e matem o indivíduo, e os que engrandecem, levam o sujeito pra mais longe, pra mais outros. e a paixão do amor romântico ainda se limita ao outro humano: o segredo da alegria (amor) está no dar-se à outra pessoa. no entanto existem outros "outros", como a música, livros, lugares: qualquer coisa que alguém possa gostar incondicionalmente pode ser uma forma de se livrar de si, de produzir alegria, de amar.
tou me sentindo um pouco triste.
triste por estar sozinho.
de novo, não é estar sem ninguém, mas sem alguém.
enfim, preciso criar estratégias de me acompanhar, e não precisar de companhia.
mas sabe, a companhia é tão agradável que eu não tenho por que não querer.
querer é bom. muito bom, aliás. então qual é o problema?
nenhum.
me apaixonei desde a primeira vez que te vi.
e fui te conhecendo. e te querendo, te amando cada vez mais.
até o fatídico dia.
ah, aquele dia.
se eu já te amava, depois daquilo tenho a impressão de não conseguir mais viver sem ti.
conseguir eu consigo.
mas não quero.
eu sonho com aquele dia.
ah, como eu sonho.
em tudo que eu procuro.
tento sentir aquilo de novo.
e a lembrança sempre acaba comigo.
de um jeito muito bom.
aí eu lembro.
de tudo que tu é.
que tu gosta, quer, faz.
aí eu quero, gosto, e amo
cada vez mais.
triste por estar sozinho.
de novo, não é estar sem ninguém, mas sem alguém.
enfim, preciso criar estratégias de me acompanhar, e não precisar de companhia.
mas sabe, a companhia é tão agradável que eu não tenho por que não querer.
querer é bom. muito bom, aliás. então qual é o problema?
nenhum.
me apaixonei desde a primeira vez que te vi.
e fui te conhecendo. e te querendo, te amando cada vez mais.
até o fatídico dia.
ah, aquele dia.
se eu já te amava, depois daquilo tenho a impressão de não conseguir mais viver sem ti.
conseguir eu consigo.
mas não quero.
eu sonho com aquele dia.
ah, como eu sonho.
em tudo que eu procuro.
tento sentir aquilo de novo.
e a lembrança sempre acaba comigo.
de um jeito muito bom.
aí eu lembro.
de tudo que tu é.
que tu gosta, quer, faz.
aí eu quero, gosto, e amo
cada vez mais.
When Daniel Johnton sung 'True love will find you in the end' I bet he was talking about himself meeting everyvody who would listen to his musics. Daniel Johnston is love for real.
Ter desejo de estar com alguém já é estar com esse alguém, porque o desejo é sentimento verdadeiro, não sensação do corpo como a vontade. A vontade e a necessidade fogem do nosso controle, por isso é importante que se tome cuidado com elas.
Desejo está próximo do amor, não afeta sentimentos ruins, a única vontade do desejo é ser realizado, se não é realizado não afeta sentimentos ruins, apenas não aumentam nossa potência (mas não diminuem). O amor é repleto de desejos, mas nunca de necessidades, porque as necessidades quando não saciadas decompõem nossos corpos e, por fim, nos matam. O desejo não mata, mas dá potência, dá vida.
É a clara diferença entre saudade e sentir falta. A "falta" entende uma necessidade (sem aquilo, não se está completo); a saudade entende desejo (sem aquilo continuo o mesmo, mas com aquilo me alegro).
Por tudo isso defendo que no amor não exista nenhuma necessidade e nada que o prive de desejar - por exemplo a posse, ciúme, dependência, dever, confiança, fidelidade. Mas cada corpo e mente são únicos e estranhos, por isso nem tudo servirá pra todos. Cada corpo e mente, de acordo com suas experiências próprias e experimentações, conhecem o que lhes compõem e decompõem. Não concordo com nenhuma convenção que venha de fora (e nem quero que concordem com o que vem de mim, porque eu sou um fora). Proponho a experimentação.
Que o amor seja livre pra desejar e nunca preso para precisar.
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